O relógio despertou às 2 da madrugada e o combinado era encontrar o guia às 2:35 no Quiosque Mirante Sonhador, no Vidigal.
Ainda meio anestesiada pela noite de pouco sono e tentando entender onde eu tava me metendo, levantei e comecei a me trocar. Já tinha deixado tudo pronto na mochila na noite anterior, pois o plano era ver o nascer do sol no Morro Dois Irmãos.
Preparativos para a trilha no Morro Dois Irmãos
Marquei esse passeio já na minha primeira semana no Rio. Sou chegada num nascer do sol e aquele parecia ter um gostinho especial: a vista lá de cima, as primeiras cores do dia, a subida até o irmão maior, todo o trajeto até lá. Tudo me encantava na ideia daquele passeio.
Curiosamente consegui dormir algumas horas, mesmo naquele estado de ansiedade que antecede esse tipo de rolê.
Em poucos minutos eu tava pronta e na mochila tinha umas castanhas, banana e água. Saio do apartamento tentando fazer o mínimo de barulho possível, pois Grace e Mauro, o casal de anfitriões, dormiam como pessoas normais fazem nesse horário, numa terça-feira de outubro.
Desci o elevador e fui até a garagem. Fiquei na dúvida se falava bom dia ou boa noite pro porteiro, que ficou admirado com meu plano de subir nos Dois Irmãos pra ver o dia nascer.
E assim saí, dirigindo por Ipanema, rumo ao quiosque do mirante. As ruas estavam vazias e tinha um ou outro ainda vagando pela avenida da praia, já meio cambaleante e alegre…
Enfim chego no mirante e o guia, Derek, chega na sequência, parando o carro do meu lado e me avisando, pela janela, que me daria carona até a praça do Vidigal, ponto de encontro do grupo. Ali era o ponto de deixar o carro e então eu teria que caminhar com ele por cerca de 10 minutos até a praça. Mas como ele trazia esse casal da Paraíba, ganhei carona e não achei ruim não.

Nosso grupo estava formado: Derek, nosso guia, o casal da Paraíba, um casal da França, dois irmãos também da Paraíba e essa que vos fala.
Saindo da praça do Vidigal, caminhamos até o ponto dos moto-táxis que nos levaria até o início da trilha.
Nesse momento, confesso que fiquei meio ressabiada pois não sou o tipo de pessoa que tem hábito de andar de moto. Mas sim, já sabia que tinha essa etapa no processo.
Antes de subir na moto é preciso fazer o pix pro cara e em seguida subi e me agarrei no suporte traseiro e não pensei em mais nada.
A subida do morro é intensa e, enquanto estávamos na praça, o Derek deu algumas orientações: pode fazer vídeo, mas só em alguns trechos. O motoboy avisa onde não pode.
Gravar vídeo? Eu segurava com tanta força aquele ferro que achei ao lado do banco que meus dedos chegaram a doer.
É uma procissão de motos. Acelerando. Subindo ladeiras estreitas e cheias de curva, ultrapassando uns aos outros. Eram 2:45 da manhã e o morro respirava: bares abertos, som tocando, gente na rua.
Chegamos no início da trilha e desci da moto. A esposa do Paraíba tava lá sozinha e então ficamos ali esperando o resto do grupo chegar. Ali atrás tinha uns caras em pé conversando e armados. Derek já tinha preparado o grupo pra essas cenas e eles também estão acostumados com a galera que vai lá pra subir o morro.
Fingimos normalidade e seguimos com o grupo.
No início da trilha tem tipo um bar mercadinho, onde pagamos a taxa da comunidade. É um valor de 10 reais que precisa ser pago em dinheiro. Eram cerca de 3 da manhã e os dois caras que cuidavam do estabelecimento estavam ali curtindo um reagge, senti uma marola no ar e eles falavam bem devagar.


Nessa hora colocamos as lanternas na cabeça, que o guia empresta, mas eu tinha levado uma lanterna de mão que já me acompanha há uns anos e ela foi bem útil. A subida até o irmão maior tem cerca de 1km. É uma trilha curta, porém intensa. Não menospreze esse um km… É um km de subida. Levamos uns 50 minutos ao todo.
A trilha não tem grandes desafios, mas é subida. Muita subida! Por isso eu celebrava cada mirante que tinha pelo caminho pois era quando a gente parava pra recuperar o fôlego e, claro, fazer umas fotos.
A madrugada tava fria, mas ao longo da subida fomos tirando blusas e gorros. Ainda tava escuro mas em cada mirante dava pra ver o desenho das luzes contornando a orla, a lagoa, o Cristo. O Rio tem dessas coisas: cada lado que você olha é uma paisagem que te fisga.

A subisda é intensa e, mesmo sendo fumante, não fiz feio.
Ao longo da trilha fui conversando com o Derek, com os irmãos da Paraíba, com o casal da França… Parece que todo o suor, cansaço e esforço une aquelas pessoas que passam pela mesma experiência e é como se tivesse aquele respeito mútuo por cada um que tava ali.
Chegamos no topo às 4:48 da manhã. Fomos os primeiros. Depois entendi todo o cuidado do Derek com os horários e logística. O melhor de tudo é chegar no topo antes dos primeiros raios, pois é quando vemos as cores mais bonitas se formando no céu.
E assim foi.
Eu, que tava começando essa viagem solo, me vi ali no topo dos dois irmãos, com pessoas que tinha acabado de conhecer, as primeiras pinceladas começavam a se formar no céu e eu tava feliz.

E ali fiquei, em silêncio. Sentindo o vento enquanto olhava o céu ganhando cores.




Escolhemos nossos lugares na pedra, sentamos e fizemos fotos, muitas. Os outros grupos começaram a chegar mas já tínhamos garantido nossos lugares privilegiados, bem na frente.
Não sei explicar o meu fascínio por nascer do sol. A noite indo embora, dando lugar pro dia, que chega trazendo luz, cores e sons. A cidade acordando. Todo aquele escuro ao nosso redor passa a ganhar cores e tons e então podemos ver a imensidão da pedra onde pisamos, galhos de árvores se agitando com o vento forte que corria e sacudia. Tudo ganha vida. Até a gente.
Na noite anterior a previsão dizia que a terça seria um dia nublado e com chuva. Cheguei a ficar preocupada com a ideia de ter q adiar o passeio. Mas naquela tarde Derek me disse que ia dar bom e que a chuva viria só no final do dia. E foi batata! O dia amanheceu colorido e radiante.
Tudo ao nosso redor se iluminou e ganhou cores e texturas: o céu com pinceladas que mudavam a todo instante em tons de laranja, rosa e azul, a mata que agora ganhava tons de verde e se movia com o vento forte que fazia e me obrigou a colocar de novo a blusa. As pessoas começavam a fazer fila na pedra pra fazer a famosa foto com o sol nascendo e eu, hipnotizada com o visual, fiquei sentada, admirada por um longo tempo. Entrei numa espécie de transe enquanto olhava aquilo tudo, pensando na viagem, feliz por ter ido, contente por tá vivendo aquilo.
Um cheiro gostoso e familiar me trouxe de volta à terra: café! Sem pensar duas vezes, falo: café? Quem trouxe café pra cá? E descubro que a outra guia, a Braba, levou uma garrafa e, num ato de pura irmandade de trilheiros, me estendeu um copo da bebida energizante sagrada dos deuses.
Eu, que já começava a sentir fome e cansaço da subida, curti aquele copo de café como um acontecimento especial. E ele foi.
Olho pra trás e me dou conta do grupo enorme de pessoas que foi chegando com os outros guias. Entre nós tinham dois aniversariantes e claro que mandamos um parabéns em conjunto pra eles. O meu seria dali uns dias… e eu nem sabia o que fazer ainda.
Ficamos no topo até o dia nascer de fato. Passamos mais de uma hora lá. Dá tempo de fazer infinitas fotos, comer um lanchinho, descansar, conversar com as pessoas, dar risada com as histórias dos guias, fazer amizades momentâneas, ficar sozinho apreciando o momento.
A vista lá de cima do Morro Dois Irmãos é hipnotizante. Leblon, Ipanema, Arpoador, Lagoa Rodrigo de Freitas, o Cristo, o Vidigal e a Rocinha. O visual é 360 e estamos rodeados de belezas das mais variadas formas.
Era hora de voltar e como eu sempre digo, quem pensa que na descida todo santo ajuda, esquece que a verdade é que o joelho dói. É preciso um certo cuidado nas pisadas porque o impacto é certo. Paramos nos mirantes e agora a paisagem é outra!
Vemos o mar de casinhas da Rocinha acompanhando o relevo dos morros, se espremendo entre a floresta. Do outro lado, nuvens se disfarçam de fumaça misteriosa que derramava sobre o morro.
A volta é totalmente diferente. É como se a gente tivesse fazendo outra trilha. É tudo novo de novo. Chegamos até o início da trilha, lá no bar mercadinho que agora estava vazio.
Era hora de subir na moto e descer o morro. O motoqueiro da descida era mais simpático e até me falou de outros passeios que ele fazia. Pagamos 7 reais pra subir e 7 pra descer.
Chegamos na praça do Vidigal, onde o passeio começou, e agora a cena era outra: movimento intenso de pessoas indo trabalhar, lanchonetes abertas, pessoas comendo e tomando café. Nessa hora a fome bateu forte e ainda teria que seguir a pé até o quiosque do mirante. O casal da França se despediu ali mesmo e foi embora num Uber e o resto do grupo desceu junto.
O trajeto até o quiosque é bem bonito e por vezes eu ficava pra trás pra fazer alguma foto.
Me despedi do pessoal, entrei no carro e, sozinha, lembrei da chegada na Praça do Vidigal, na corrida de moto-táxi, na subida com lanternas, nas primeiras pinceladas no céu, nas conversas e risadas com as pessoas. Eu tinha ido!
Queria tanto fazer aquele passeio, tive receio de ir sozinha, mas fui! Tive preguiça de acordar às 2, mas acordei! Cansei durante a subida, mas cheguei.
Mas é como costumo dizer nessas situações: ainda bem que eu fui! A sensação de chegar no topo é tão única: a vista lá de cima deixa a gente sem palavras. Sempre vale a pena.
Sigo de carro até o apartamento em Ipanema, que ficava na Nascimento Silva, num canto sem saída que dava numa pedra, enorme, que virava um morro imponente e bem conhecido, o Canta Galo.
Era 7:30 da manhã e eu seguia dirigindo, o trânsito intenso não me deixou aflita, eu tava sem pressa, apesar da fome.
Eu trabalhava naquele dia e, enquanto fazia meu café, pensei em quanta coisa já tinha feito, vivido e sentido.
Fazia uma semana que eu estava no Rio e, mesmo trabalhando, já tinha feito tanta coisa, conhecido tanta gente, de tantos lugares.
Eu começava a entender um pouco melhor esse negócio de viajar sozinha. E nem fazia ideia de tudo o que viria…


