De repente olho ao redor e vejo corredores-labirinto, cheios de queijos, doces, cheiros e barulho. Já não lembro mais por onde entrei e nem cheguei onde queria ir. Assim foi a minha chegada ao Mercado Central de BH.
Nesse dia, uma sexta, tinha ido na academia e o plano era passar no Mercado na volta, pra comer e pegar unas cositas.
A chegada no Mercado Central de BH
Fui cheia de sede, fome e calor. O trânsito das 14h tava lento e quente, por isso a ideia era chegar lá e logo achar a tal barraca da limonada. Tá bom…
O Mercado é enorme, um quarteirão, cheio de corredores com barracas dos mais variados cheiros e texturas: queijos, latas gigantes de doces, com aquele cheiro de doce de vó, temperos, cheiro de ervas, canela, cachaça, biscoitos… isso sem contar os restaurantes por lá espalhando o cheiro da carne na chapa, ou da cebola, ou de tudo junto.

Não dá pra entrar ali com fome. Mas cadê a limonada? Eu já tinha dado várias voltas a ponto de já nem lembrar de onde tinha vindo. É fácil de acontecer isso lá e eu já sabia… tinha ido no domingo com a Nay, uma amiga de quando trabalhei na Rock, que me apresentou o lugar.
Depois de ir e vir, andar como se “soubesse onde estava indo”, uma hora eis que olho pra cima e vejo… a Tradicional Limonada, em funcionamento desde 1938! Mais que depressa peço um copo pro moço simpático que me atendeu, e logo finalizo, dando goladas que chegam a ser sonoras, gelando minha garganta. A temperatura tava ideal: bem gelada, mas não a ponto de doer a testa, e azedinha na medida, do jeito que eu gosto.
Peço 2 garrafas pra levar (uma de limonada com groselha e outra de caipirinha), e saio agora em busca da empada, que seria meu almoço. Pós treino…
Dessa vez não demoro muito e acho o Ponto da Empada, simples e honesto, daquele tipo de lugar de que sentimos falta hoje em dia.

Olho na vitrine de empadas e pergunto pra moça que conversava do outro lado do balcão: tem de que hoje?
E mais uma vez ele aparece, recheando a empada, o jiló.
Notei que por aqui ele aparece em muitos lugares… mas confesso que na empada me surpreendeu. Na dúvida não provei…
Peço duas: uma de frango e azeitona e a outra de palmito. E um café pra acompanhar.
O molho de pimenta no balcão me chama e então vou colocando umas gotas entre uma bocada e outra. Intercalando com café quente, coado, na caneca de louça.
O recheio de frango é saboroso, úmido, bem temperado! E o molho de pimenta secular deu a picância ideal com apenas 2 gotas por mordida.
Saio dali e procuro o Café Dois Irmãos, porque de repente eu precisava daquela broa. Peço 2 e como uma ali mesmo, com outro café. A broa vem morninha, com a casquinha levemente tostadinha e macia por dentro… a primeira mordida já se sente tudo de uma vez: o leve croc da casquinha junto daquela sensação de abraço quentinho ao mastigar aquele alento.
E o gole de café quente e fumegante na sequência cai como uma luva!
No caixa, falo com a moça da perdição de ter descoberto aquele lugar, porque agora precisava daquelas broas. Como ia fazer em Campinas? Ela me fala do pacote de broas congeladas, prontas pra assar. E desde então estou pensando em formas de otimizar essa logística no meu retorno, semana que vem.
Levo uma broa e peço também um biscoito de queijo. Lembra o que na minha cidade chamamos de chipa, mas esse não é uma meia lua como os de lá, e sim comprido. Mas é tipo uma mistura de biscoito com pão de queijo. Crocante e macio ao mesmo tempo.
Reflexões no mercado de BH
Sigo com minhas sacolas e me dou conta de que estou ali naquela cidade há quase um mês, trabalhando, dormindo, acordando, voltando da academia e passando no Mercado Central, como qualquer cidadão belo-horizontino que se preze.
Começo a me sentir à vontade transitando naqueles corredores coloridos e cheios de sons. Pessoas falando, comprando, comendo. Barulho de chapa quente e fumaça da carne defumando o ambiente. E a gente. O cara do abacaxi, o do fígado com jiló, do tropeiro. O cara do queijo canastra. Dos potes de doce. O pão de queijo recheado.
Por um momento me sinto parte daquele ecossistema e sigo tranquila, olhando, sentindo toda aquela pulsação e pensando que não me restam muitos dias na cidade e no que mais poderia levar dali.
Vou andando com as minhas sacolas e acho o Xá de Cana. Preciso provar! O moço, também simpático, me deu um pouco e, verdade seja dita, mineiro sabe das coisas! Pelo que o site diz, essa bebida marota e refrescante foi idealizada por Sthella Lima, que sabiamente misturou cachaça, caldo de cana e limão. Como podia dar errado? Peguei logo 6 e ganhei um copo (de fibra de coco), numa promoção que o moço simpático me ofereceu. “Bem provável que não ache isso fácil em Campinas”, pensei pra justificar a quantidade que tava levando…
Mais adiante, parei na barraca Rei dos biscoitos, lugar difícil de manter o foco, tamanha diversidade de cheiros, texturas e formatos: redondos, trançados, compridos. O fala-fala de clientes e vendedores se mistura e por vezes é preciso esperar pra fazer o pedido. Resolvo pegar um pacote com mini bombocados, depois de apertar e sentir que eram macios. Pego também um outro de nome curioso, Tareco, já um pouco mais firme, mas ainda com uma certa maciez. Ambos perfeitos com café. Pensei.

• Gelatina de cachaça • “A” Broa do Dois Irmãos • As bolachinasChega! Preciso sair daqui! Disse pra mim mesma depois de me dar conta da quantidade de vezes que “aproximei o cartão” de alguma maquininha.
O problema no pagamento
Antes de sair, chego numa daquelas barracas de castanha; eu adoro todas. Mas dessa vez tava de olho numas drágeas diferentes que vi lá. Castanha de caju com cacau 70%. E cereja também. “Quero essas”, pedi pra uma das moças.
Sigo rumo ao caixa onde gasto um certo tempo esperando o cara na minha frente. Detalhe que ele já tinha ido pra lá bem antes de fazer meu pedido. Mas o pagamento do moço não processava e ele tentava explicar que passou o VR, mas que pelo jeito ali eles não aceitavam. Ele falava alto, explicando o problema do erro no pagamento, como se fizesse questão de que as pessoas ali soubessem que ele tinha como pagar, mas teve um probleminha chato tentando usar o VR.
Depois de cansar o braço esperando, finalmente chega a minha vez de pagar e percebo que as sacolas pesam, assim como a ideia de ir embora daqui na semana que vem.
Agora deu. Vamos embora, Chris! Digo, intimando a mim mesma. Tinha que trabalhar ainda nesse dia.
Percebo que não me sentia mais tão perdida ali dentro. Dei tantas voltas que acabei localizando algumas coisas no caminho e deu pra me situar a ponto de sair pelo mesmo lugar onde entrei. Até porque o estacionamento estava nessa rua.
Pois é… Tenho minhas dificuldades com geolocalização. Nasci desprovida de bússola interna.
Lembro que essa é a última semana aqui. Depois volto pra casa. A vontade era de ficar mais. Como também aconteceu no Rio.
Não sei o dia de amanhã, mas sei que quero estar em movimento. Explorando novos lugares por aí. E também por aqui, por dentro.


