Sobre dormir no carro, a Pedra da Macela e outras reflexões banais 

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O objetivo era chegar no topo da Pedra da Macela por volta das 6h da manhã, pra ver o dia nascer.

Chegamos em Cunha junto com a noite, quase sete horas. A cidadezinha, que já é pacata durante o dia, tava calada. As lojas e comércios já estavam fechados, mas avistamos uma luz pálida mais adiante na calçada.

– É um restaurante? Perguntei com fome…

– Parece uma pizzaria! Disse o Lucas, quase que farejando no ar…

Olhei e disse: Porco e Peixe? Como um lugar tem esse nome e serve pizza? Aliás, como você descobriu que tem pizza?

Até agora não sei de onde tirei “Porco e Peixe”, porque o nome real era “Porco e Pizza” (que por si só já é hilário!). Mas confesso que o nome desse restaurante rendeu boas gargalhadas minhas e do Lucas, porque errei o nome mais umas 2 vezes! {aquelas coisas que são muito engraçadas só na hora que acontecem}

De barriga cheia e coração feliz, fumamos um cigarro e seguimos pela Estrada Real, rumo ao Parque Nacional da Serra da Bocaina.

O plano era passar a noite no carro, acordar umas 5 da manhã e subir a trilha (que a meu ver era tranquila! Menos de 2 km!) e finalmente admirar o dia raiando com o sol dando as caras entre as montanhas que sumiam de vista.

Conforme fomos chegando mais perto do parque, o tempo foi fechando… E começou uma garoa fina. O frio apertou e fechei o vidro.

A gente tava animado com a ideia de fazer uma “aventura e dormir no carro pra ver o sol nascer”… Ninguém tinha barraca e eu achei que seria tranquilo dormir uma noite no carro. Nada demais, né? Então…

Até que chegamos no parque. A chuva aumentou e quando parei na portaria, o guardinha apareceu todo encapado e me pediu pra descer do carro. Fui correndo desviando das poças de barro enquanto sentia o frio cortando minha pele, por debaixo do casaco.

O guardinha foi simpático, entregou uma prancheta e me pediu pra preencher uma ficha. Tive que tirar as mãos do bolso e elas doíam de frio. Tudo ali tava úmido e gelado. 

Enquanto eu preenchia a ficha, chegou mais um cara, grandão. Mas, diferente de mim, ele trouxe barraca e ia subir pra passar a noite lá no topo. Tem área de camping tanto na parte baixa quanto na alta. E banheiro também! Aliás, a estrutura do parque nesse ponto é bem bacana! E o melhor: tudo gratuito!

Economizamos uma diária no AirBnb…

Terminei de preencher a ficha e entreguei pro guarda. Ele viu meu ddd e perguntou: de onde você é?

– Campinas, falei.

O cara grandão que preenchia a ficha entrou na conversa falando de onde era (e eu esqueci!) e contou que ia subir e dormir lá. 

– Tá doido? Eu disse. Vai subir nessa chuva?

– Ah, não ligo não! Quero é acordar amanhã lá em cima!

Nesse momento eu já tava bem preocupada com aquele tempo e comecei a pensar na possibilidade de todo aquele esforço ser em vão! E se amanhacer nublado? Adeus nascer do sol… Já era.

– Moço, será que tem chance de amanhecer com céu limpo? Falei quase em tom de súplica pro guarda, como se ele pudesse fazer alguma coisa.

(E também porque numa outra viagem que fiz pra Cunha, cheguei no parque e pra minha tristeza descobri que a trilha de acesso a Pedra da Macela tava fechada, por questões de segurança. Pelo visto teve algum deslizamento meses atrás… Depois, pesquisando, descobri que geralmente eles fecham a subida em época de chuva. Eu tinha ido em fevereiro, então…)

Nessa outra vez, cheguei no parque também com o céu todo nublado, porém era dia, pois o plano era ver o pôr do sol. Mas só tinha neblina na estradinha! E patos atravessando!

placa na estrada até a Pedra da Macela

Visibilidade bem curta. Conversando com o guarda do parque, perguntando sobre a pedra, porque tava fechada, ele me diz que tinha acabado de voltar de lá de cima e que, pra nossa surpresa, o céu tava limpo lá do topo!

-Mentira! Falei sem pensar…

Ele falou que isso acontece as vezes! “Aqui embaixo tá cinza… mas chegando lá no topo, com seus 1842 metros de altitude, você consegue ver o manto azul depois da densa camada de nuvens.”

Naquela noite molhada e fria, eu me agarrei àquela informação e contei pra esse guarda que falava comigo: “um outro guarda me disse isso outra vez!” (vai que ele não sabe dessas coisas).

Mas ele já veio logo com a triste e dura realidade:

– É… Então, lá em cima também tá tudo fechado! É uma frente fria que tá vindo do sul… e vai ficar por uns dias.

E agora? Melhor nem subir a trilha amanhã então… Pra quê? Pensei, triste… lembrando que ia ter que dormir no carro e de repente bateu um arrependimento e tudo pareceu um fiasco…

Por que pensei nessa história de dormir no carro??? Que coisa mais sem sentido! 

E o Lucas lá no carro, sem saber de nada disso, nem do tempo, nem da minha agonia de não querer mais estar ali.

O caminho de volta pro carro era curto, mas eu pensei tanto…

Entrei no carro e ficamos ali batendo papo… Contei pro Lucas as novidades empolgantes e chegamos a pensar se valia a pena subir.

Depois fomos dar uma voltinha com lanterna nas imediações… E fumamos o último cigarro. Estacionei quase ao lado do banheiro, pensando em facilitar a logística, naquela garoa gelada que caía ininterruptamente.

O cansaço bateu. E lembramos que no dia seguinte o plano era acordar às 5.

Melhor 5h15! Pensei… 

– Na dúvida a gente acorda e daí decide se vai ou não encarar a subida da trilha. Combinamos…

Acomodar no banco da frente de um Onix branco alugado era a missão agora. Levei um cobertor de casal (roxo) e ele tinha que dar pra nós dois. Deitamos o banco até encostar no banco de trás. 

E foi difícil arrumar uma maneira de ajeitar as pernas. Mas o mais difícil pra mim é a posição de dormir: eu nunca durmo de barriga pra cima. Só dormi assim na reta final da minha gravidez. Tentei virar meio de lado… Mas e o que faço com as pernas? Fui passando o pé em lugares, vasculhando, na tentativa de arrumar um encaixe. 

Fiquei nessa movimentação um tempo considerável. Achava uma posição que parecia boa e promissora… mas depois de 2 minutos alguma coisa doía, o pé escorregava, as costas pediam arrego.

O Lucas já tava na fase da respiração sonora. Sabe quando não é um ronco em si, mas uma respiração com áudio? Profunda… Pois é…

Tentei entrar em modo cápsula e me envolvi com a minha parte da coberta. Devo ter achado uma posição pois acordei depois de um bom tempo, e notei que precisava ir ao banheiro.

Nesse momento notei um certo incômodo… uma cólica começou a dar sinais… 

Mas já? Justo agora? Pensei… 

Resolvi o que tinha pra resolver e voltei aos meus aposentos, ainda meio sonâmbula…

Acordo com meu celular me avisando que já eram 5h15.

Caramba, eu dormi mesmo! Confesso que por vários momentos eu pensava se ia conseguir… Mas sim, de fato eu tinha dormido! O corpo tava meio moído, mas… Faz parte!

Escutamos vozes e vimos pessoas chegando com lanternas, encapotadas e de gorros, animadas em subir a trilha.

Tava escuro ainda, tudo molhado, neblina. Olhei pro céu na esperança de ver estrelas, mas pelo jeito tava tudo nublado. Porém, não chovia! Nada. Nenhuma gotinha.

Depois da higiene pessoal matinal, nos preparamos pra subir a trilha. Era a decisão certa.

– Como a trilha é pequena e tá bem cedo, vamos subir e na volta a gente toma café.  – Falei pro Lucas

– Boa! Não tô com fome… ele disse

Abri o cooler pra pegar uma água e passei o olho no whey protein que tinha levado e pensei seriamente se devia levar junto com a maçã que tava ali.

– Ah, nem precisa… não vamos demorar. (Pensei, mas no fundo eu sentia que devia levar.)

E assim fomos, com frio, jaqueta, bota, gorro e uma singela garrafinha d’água.

Sim, realmente a trilha é curta! E sim, é subida, disso eu também sabia, afinal, estamos subindo em uma pedra! Mas eu não fazia ideia do QUÃO íngreme ela é! E do quanto a altitude afeta a gente. E me esqueci que sou fumante…

A trilha nem pode ser chamada de trilha, pois é uma via larga, feita de bloquetes. Com banquinhos ao longo de toda sua margem. E na maior parte do trajeto árvores imensas nos cercavam, formando um túnel de galhos e folhas que dançavam conforme o vento batia, deixando a trilha mais escura e úmida e com uma certa melodia.

Tudo ali tava molhado! Cada galho, cada folha e cada alga. Até as teias de aranha! 

Começamos a trilha contentes, serelepes e saltitantes! Contentes por estarmos ali juntos naquela aventura entre mãe e filho.

Mas o fato é que fomos ingênuos. Fomos moleques.

A trilha exige de nós. E eu subestimei sua simplicidade.

Até me lembrei daquela frase clichê do “simples que não é fácil” e às vezes sinto raiva desses clichês de tão reais que são.

Ao longo do caminho fomos mudando de humor. De saltitantes pra senhores cansados, ofegantes e corcundas, aproveitando os bancos pra recuperar a sanidade hora ou outra.

Foi quando entendemos o porquê de tantos bancos!

Quanto mais a gente andava, mais íngreme ficava. Achamos que era uma ilusão de ótica e que já não estávamos mais lúcidos devido à altitude, mas é isso mesmo! Fato confirmado por dona Zilda, nossa anfitriã que nos guiou até nosso refúgio no meio do mato.

Ela contou de quando subiu na pedra: “quanto mais a gente sobe, mais íngreme vai ficando! Foi a primeira e última vez que subi lá!” Ela disse e seguiu numa gargalhada.

Mas voltando à trilha…

Nessa hora começamos a sentir calor, mas era impossível tirar qualquer blusa. O máximo que consegui tirar foi o gorro e as luvas.

A respiração tava ofegante. O dia foi se apresentando e já não precisávamos mais das lanternas! Às vezes a gente olhava lá na frente e tinha certeza de que era a chegada, mas não, era outra curva que seguia na névoa intrigante. E agora mais íngreme!

Eu sentia um misto de cansaço, frio, calor, fome, confusão e cólica. Sim, ela me acompanhou na subida! Meu estômago rosnava e eu via a imagem do whey e da maçã como uma miragem.

– Imagina aquela maçã agora? Eu pensava em voz alta…

A respiração foi ficando cada vez mais ofegante e agora era questão de honra chegar lá em cima e vencer essa batalha.

Chegou um momento em que eu e o Lucas não falávamos mais… a gente só se olhava e pensava “será que falta muito?”

A subida foi ficando ainda mais cruel, se é que isso é possível. E no meio daquele cansaço e confusão, olhei pro céu e vi uma mancha azul! Até esqueci da cólica nessa hora.

– O céu tá abrindo!!! Gritei, sem pensar em mais nada nessa vida.

Um misto de esgotamento e euforia tomou conta de nossas almas e agora víamos uma esperança de recompensa por todo nosso esforço.

Conforme fomos avançando em direção ao topo, o céu foi se mostrando, mas ainda meio tímido… Será? Lembrei do filme “Um sonho de liberdade”, quando Dufresne diz, em sua carta para Red:

“A esperança é uma coisa boa, talvez a melhor de todas, e coisas boas nunca morrem”

Pelo visto as nuvens se compadeceram com nossas súplicas e, em sua generosidade celestial, decidiram nos agraciar com o espetáculo que acontecia… E as nuvens foram se afastando, como cortinas que se abrem no palco do teatro municipal.

Chegamos no topo por volta das 6h15! 1.842 metros acima do nível do mar! O céu tava um degradê suave de tons pastéis que eu não conseguiria reproduzir no Canva…

É uma sensação boa essa de chegar. De terminar a trilha. Dá um afago no coração. Dá uma força e ao mesmo tempo dá vontade de chorar quando você para de viajar e presta atenção no que tá acontecendo ali, na sua frente: aquele céu que mesclava tons de azul, lilás, rosa e laranja, com uma camada misteriosa embaixo que por um momento achamos ser água, mas que na verdade era nuvem. Muitas delas! Como se fosse uma densa camada de fumaça que uma máquina gigante colocou de forma ordenada ao pé das montanhas pra dar um ar místico, meio “As Brumas de Avalon”…

Eu falo, a altitude mexe com a cabeça da gente…

Depois de passarmos um tempo em silêncio, encarando aquilo tudo, respirando o “ar puro da montanha”, depois das tantas fotos e vídeos, lembramos que tava frio! Aliás, tava frio pra cacete! O vento doía. 

Bota gorro de novo, bota luva, fecha casaco… 

– Preciso andar! Tô congelando… falei batendo os dentes.

Exploramos o topo e fomos até o outro lado pra ver a vista de lá.

Era ainda melhor!

paisagem vista pedra da macela

– “Ainda bem que viemos!” – era o que a gente repetia o tempo todo, enquanto sorria feito bobo só por estar ali, vivendo aquilo.

A fome chegou massacrando e nessa hora vinha, ainda mais forte, a imagem do whey e da maçã. WHYYYYYY???? WHY???? Eu gritava.

A combinação de frio, vento e fome nos obrigou a voltar. Fomos contentes afinal “na descida todo santo ajuda”, mas o fato é que o joelho dói!

Descemos felizes e famintos, com aquela sensação de dever cumprido, de missão concluída. Dezenas de fotos pelo caminho… lembranças da subida, do topo, do frio, do sol, das nuvens. Da noite no carro e das posições que criamos pra dormir.

Na chegada, ouvimos lá longe aquela musiquinha de quando o Senna ganhava a corrida… “Tan tan tan”… Mas pode ter sido só na minha cabeça, não tenho certeza.

A maçã e o whey só serviram pra abrir o apetite. Nossa fome pedia mais! Pedia sustança! 

Tivemos uma noite no banco deitado de um Ônix, seguido de um belo cárdio em jejum. 

-Precisamos comer! Falávamos já sem energia…

Não podíamos demorar, pois já estávamos atrasados pra encontrar nossa anfitriã, então parei num posto no caminho já do lado do ponto de encontro, no portal da cidade.

Eram nove e pouco da manhã e só tinha uns salgados humildes, em formatos duvidosos, numa vitrine meio pálida e sebosa… 

O jeito foi encarar aqueles salgados com uma coca (zero) trincando pra sassear nossos corpos já quase sem vida. Não dava tempo de procurar outras opções. Devoramos tudo no pique “ogro” e dois minutos depois já tínhamos terminado nosso café da manhã nutritivo.

Agora era esperar nossa anfitriã, chegar no que seria nossa casa nos próximos dias e ligar meu computador. Era sexta, eu trabalhava e tinha uma reunião logo de manhã. Aquela de toda sexta.

A mesma reunião de sexta, às 10h da manhã, mas já tinha acontecido tanta coisa antes disso que o dia de repente pareceu ser maior!

AINDA são 10 horas! Eu pensava comigo mesma, cansada e meio sem acreditar.

A viagem tava só começando e a gente tava feliz pelo modo como ela começou! Se tem uma coisa que adoro fazer nessa vida, é viajar com meu filho. Só eu e ele! Temos nosso ritmo, nossas zueiras, nossos papos cabeça. 

Fiz um café enquanto ligava o computador que me trouxe de volta ao mundo real. A reunião era séria, mas por dentro eu tava em paz! 

O café desceu aconchegante e exatamente nessa hora me lembrei de que naquela noite eu ia dormir numa cama!

Se você gosta desse tipo de viagem, sem roteiro fechado e com tudo que pode dar errado dando certo, conta aqui nos comentários. Veja também como foi ver o nascer do sol no Morro Dois Irmãos, no RJ

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Foto de Chris Dornellas
Chris Dornellas
Exploradora por natureza. Escrevo sobre viagens, fotografia e descobertas que nascem no caminho. Acredito que explorar lugares também é uma forma de se explorar por dentro.

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