O que fazer (sozinha) no Rio de Janeiro

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Essa é uma tarefa difícil, dizer o que fazer sozinha no Rio. Depende de muitos fatores: de quem você é, do que gosta de fazer, como interage com pessoas. Se é mais urbano ou curte natureza, se gosta de conforto ou se gosta de se aventurar. Se é tímido ou extrovertido. E por aí vai…

As variáveis são muitas. Vou compartilhar como foi a minha experiência e espero que ela traga alguma luz. 

Apesar de estar perdida com o tanto de coisa pra se fazer no Rio, eu tinha preferências. Queria conhecer histórias, arte, cultura, natureza. Não fiz questão de ir no Cristo Redentor ou no Pão de Açúcar. Até penso em conhecer em algum outro momento, mas naquele eu simplesmente pulei.

Queria ir pra feiras, tomar mate, comer comida de rua. Queria passar pela Rua do Ouvidor, tão cheia de histórias. Queria visitar museus e mais do que a Colombo, queria ir na Casa Cavé. Queria ir onde tinha história.

A ideia dos tours no Rio me agradou já que estaria sozinha e assim poderia conhecer pessoas enquanto explorava a cidade. Mas depois de participar de alguns, vi que o melhor de tudo são as histórias contadas ao longo do percurso!

Pesquisei em muitos sites, blogs e apps. Alguns tours reservei antes de sair de viagem, já para os primeiros dias que estaria no Rio. Outros eu já deixei salvo pra ir reservando ao longo dos dias, de acordo com a minha programação, trabalho, clima… Esses foram os tours que fiz em um mês estando no RJ:

  1. Walking tour no Centro Histórico
  2. Tour guiado no Jardim Botânico
  3. Trilha no Morro Dois Irmãos pra ver o nascer do sol
  4. Trilha guiada no Sítio Burle Marx
  5. Walking tour em Ipanema e Copacabana
  6. Tour de 4×4 na Floresta da Tijuca
  7. Tour da Pequena África
  8. Walking tour na Favela da Rocinha
  9. Walking tour na URCA
  10. Walking tour em Santa Tereza

O primeiro free walking tour que fiz foi já no meu primeiro sábado, no Centro Histórico, começando pela Confeitaria Colombo, passando pela Casa Tucum, Travessa do Comércio, Praça XV, Cinelândia, finalizando nas proximidades do Teatro Municipal

Fiquei fascinada por todas as histórias que o guia contava ao longo do percurso. O foco aqui é o descobrimento do Brasil, as primeiras embarcações chegando, a cidade se formando, a relação com Portugal. 

Muita história aconteceu por ali e por isso senti um certo fascínio com a ideia de pisar nesses lugares e sentir toda a energia. 

Na adolescência eu fugia das aulas de história, odiava e ficava de recuperação todo ano. Pela primeira vez eu aprendia história na prática, enquanto passava por lugares cheios de acontecimentos emblemáticos.

No dia seguinte, um domingo, fui ao Jardim Botânico e participei do tour guiado que eles oferecem. Essa viagem me fez virar fã de tour guiado e passei a adorar as histórias que ouvimos e pessoas que encontramos pelo caminho. 

Nesse tour conheci um casal do sul e outro do Chile. Ao longo do tour passamos por alguns pontos do Jardim Botânico como o orquidário, a estufa de bromélias e até as ruínas da antiga fábrica de pólvora.

Tudo isso envolvido num paisagismo sem igual! O lugar é enorme e maravilhoso! Até pensei em voltar lá outras vezes pra explorar mais. Eles oferecem outros tipos de passeio no site e um deles é um passeio noturno, que me deixou curiosa! 

Mas acabei não voltando lá. Devia ter ficado mais de um mês naquela cidade tão pulsante!

Depois teve a trilha do Morro Dois Irmãos, no Vidigal, pra ver o nascer do sol. Pesquisei vários guias e acabei escolhendo o Derek. E foi a melhor escolha! Ele é atencioso, cuidadoso e preparado. Conhece o lugar e organiza tudo muito bem, nos mínimos detalhes. Ele também faz outras trilhas, mas acabei não tendo tempo de fazer.

Esse foi outro daqueles passeios que adorei ter feito! Por todos os motivos: ter acordado às duas da manhã pra encontrar o guia às 2:35, ter subido o Vidigal de mototáxi, subir a trilha até o Irmão Maior e chegar lá às 4:51 da manhã e ver o dia ganhando vida lá de cima. 

Além de tudo isso, as amizades e conversas pelo caminho são o que traz ainda mais sabor pra essa experiência! 

Enquanto estava no Rio, fiquei sabendo do Sítio Burle Marx , que é aberto à visitação. O sítio fica na Barra de Guaratiba, zona oeste do Rio, e a visita precisa ser agendada e paga em dinheiro (R$10,00 ou R$5, caso você pague meia) na chegada. 

O lugar é incrível… Comprado em 1949 por Burle Marx e seu irmão, sua ideia era fazer do sítio um laboratório e assim o fez. 

Nesse passeio os anfitriões, Grace e Mauro, foram junto comigo! Comentei com eles que iria e ficaram bem animados com a ideia… acabamos todos correndo apressados, Mauro confirmando se o Waze me mandava pelo melhor caminho (e me deu várias dicas boas) e a Grace, no banco de trás, percebendo que tinha comprado o ingresso para outro dia, tentando ligar pra eles pra pedir se podiam participar naquele dia, já que estávamos relativamente perto, enquanto passávamos por um túnel e o sinal ficava horrível.

Mas deu tudo certo e demos risada depois do sufoco! 

O que fazer (sozinha) no Rio de Janeiro - Sítio Burle Marx - Chris e anfitriões
Grace e Mauro, meus anfitriões queridos!

O sítio é uma obra de arte em todos os sentidos: os jardins parecem pinturas! Padrões de cores, texturas, folhagens, raízes… Tudo harmoniosamente pulsando! Visitamos também a casa onde Burle Marx viveu até a morte, seu ateliê. Lá descobrimos as várias faces do grande arquiteto e paisagista que ia muito além, sendo também escultor, pintor, desenhista, cantor.

O tour de Ipanema é focado na história da Bossa Nova, da Garota de Ipanema e outras histórias, como a das Ilhas Cagarras. Vamos seguindo rumo ao Arpoador e ouvimos diversas histórias, entre elas a do Menino do Rio e do Circo Voador, que começou lá.

Impossível não lembrar do famoso verão da lata. Nesse tour eu era a única brasileira, só tinha gente da América do Sul: Chile, Bolívia, Argentina e ninguém sabia dessa história. Foi engraçado ver a reação dos gringos ouvindo sobre o verão da lata. 

A guia, Fernanda (uma chilena muito simpática), me falava da ideia que ela tem de fazer uma série sobre esse fato, indignada por ninguém ainda ter feito.

Em Copacabana, ouvimos sobre o início daquele bairro, que começou como uma pequena vila de pescadores. 

Nesse passeio, fiz amizade com uma argentina que visitava o Rio, a Roccio, e depois do passeio, fomos juntas tomar um café na Confeitaria Colombo que fica no forte de Copacabana e finalizamos a noite no famoso bar Bip Bip (aqui nesse post falei mais sobre isso). 

O tour de 4×4 na Floresta da Tijuca foi outro onde eu era a única brasileira. O ponto de encontro era no Botafogo e, como tava de folga nesse dia, resolvi passar a manhã por lá e ficar até o horário de início do tour, às 14h. 

Lá fui até a Casa Rui Barbosa, onde infelizmente não pude entrar, pois estava em reforma. Andei pelo jardim, imenso e lindo, e depois fui pra Casa Firjan

Meu tempo tava curto, então parei num lugar pra comer e segui, caminhando, até o ponto de encontro.

Tinham 4 ingleses, um casal do México (de Mitchocan), uns caras de Portugal e um da Angola. Silva, o guia, carioca e articulado que só, desenrolava bem no inglês, espanhol e arranhava um francês. Os ingleses ficavam entre eles e não se misturaram com o restante do grupo. Até hoje acho graça quando lembro disso. Os portugueses eram falantes e simpáticos e os mexicanos também. 

A Floresta da Tijuca é imensa! É a maior floresta urbana do mundo. Paramos na cachoeira do Taunay e em diversos mirantes pelo caminho, entre eles a Vista Chinesa. O visual de lá é maravilhoso. O Rio é impressionante, pra cada lado que você olha, se impressiona com a paisagem. Seja ela urbana, natural ou (o mais comum) misturando ambos. Ou ainda, contrastante.

O tour da Rocinha eu soube que existia quando já estava no Rio. Lembro que minha primeira impressão foi achar estranho… Tour pra gringo ver favela! Pensei. Mas o Instagram insistia em me mostrar esse tour. Acabei achando uma agência de guias locais e comecei a achar interessante a ideia de ir até lá. 

E fui. Mais uma vez eu era a única brasileira. Tinha um italiano simpático e fomos batemos papo ao longo do tour. Ele tinha vindo pra um congresso de odontologia e tava amando o Rio, as caipirinhas, a natureza e toda a malemolência carioca. 

Além de mim e do italiano gente boa, tinham dois suecos bem novinhos e um casal da Alemanha. Nosso guia, Diniz, um moço com seus 18 anos, nascido e criado na Rocinha, nos levou pra andar pelas vielas e ladeiras de lá. Ele contou muita coisa da vida naquela comunidade. Bem diferente do que é mostrado nos noticiários.

Andando pelas ruas caóticas, os fios nos postes são uma atração à parte. Impossível não parar pra olhar toda aquela complexidade de fios levando eletricidade pra todo canto do morro. 

Um dos meninos de lá dizia inconformado: “os gringo vem aqui e fica tirando foto de fio! Vai entender esse povo!” – Escutei enquanto tirava fotos dos fios… 

Conhecemos o grupo Acorda Capoeira, que faz um trabalho incrível de inclusão social, educando e desenvolvendo crianças da comunidade. Além do trabalho de artistas, nascidos lá, como o incrível Maxwell Alexandre.

O tour da Pequena África, fiz com a Luana da Sou + Carioca. Esse, sem dúvida, foi um dos meus preferidos! História pura, nua e crua. Luana é historiadora e conduz o grupo de uma forma muito leve e gostosa, apesar de todo peso que envolve o tema do tour.

E também nos faz ver os fatos por outro lado, reconhecendo toda a herança africana presente na nossa história. Passamos pela zona portuária, Pedra do Sal, Cais do Valongo, Largo de São Francisco. 

O que fazer (sozinha) no Rio de Janeiro - Tour da Pequena África - Grupo

Esse, sem dúvida, foi meu tour preferido! Tanto pelo teor histórico como pelas amizades que fiz com a Denise e a Denya (uma carioca e outra mineira). Fomos almoçar juntas e depois caminhamos até a Praça Mauá e ficamos perambulando na feirinha e conseguimos participar da The Lumisphere Experience, no Museu do Amanhã, de graça.

Na URCA, nosso guia era da República Dominicana, está no Rio há uns 5 anos. Além de mim, tinha um casal do Uruguai, muito gente boa! Por um momento achei que o cara fosse o Hank, de Breaking Bad e posso provar a semelhança:

O que fazer (sozinha) no Rio de Janeiro - Walking tour na Urca - Hank de Breaking Bad

A URCA é o bairro que mais conservou a arquitetura. Por lá não vemos aqueles prédios imensos e as casas preservam as fachadas originais. Aquele bairro tem uma posição privilegiada! De um lado, o Cristo, imponente, e do outro, o Pão de Açúcar. 

Passamos pelo Cassino da Urca, caminhamos pela gloriosa Mureta da Urca, passando pelas praias da Urca e Vermelha, onde tem início a Trilha Claudio Coutinho.

Nesse dia comi pastel na Panificadora URCA. Tava tão bom que pedi mais um.

Nesse dia, fui de Uber até o ponto de encontro na URCA e depois, voltei de mototáxi, pois ficava metade do preço. Por sorte achei um motorista legal, contei que não andava muito de moto e ele foi gente boa, dirigiu com cuidado.

Era domingo, tava absurdamente quente e o tour tinha início às 11h30 da manhã. Cheguei no Largo dos Guimarães, ponto de encontro do tour, uns minutos antes e aproveitei pra ir até o Café do Alto (em frente) e tomar o suco mais gelado que eles tivessem. O moço me deu um copão de suco de laranja com maracujá (delicioso!) e tava tão gelado que chegou a doer a testa.

O tour leva cerca de 2h30 e termina no Parque das Ruínas, com mais uma vista privilegiada da cidade maravilha mutante. 

Nesse dia fiz amizade com duas amigas de São Paulo, e exploramos o Parque das Ruínas juntas (agora se chama Parque Glória Maria) e depois seguimos rumo à Escadaria Selarón. Eu já tinha ido lá, mas dessa vez, chegaríamos por cima e, óbvio que topei passar por lá de novo.

Aquele lugar é sempre cheio e chega a ser engraçado ver a movimentação das pessoas posando pra foto o tempo todo.

Seguimos até a tradicional e gigantesca Feira da Glória. Tem de tudo lá. Mas, movidas pela fome e pelo calor intenso, partimos pro metrô, pensando em almoçar por Ipanema.

Quando tive a ideia de fazer essa viagem solo, a cidade do Rio me veio em mente sem maiores explicações lógicas. Eu só sabia que era pra lá que eu queria ir. Estando no Rio e vivenciando aquilo tudo, sozinha, tive certeza de que fiz a melhor escolha.

O fato de ter viajado sozinha me fez procurar pelos tours em grupo e mudou completamente a forma como vejo os tours. Até então nunca tinha me interessado por esse tipo de atividade, em grupo. Mas, estando sozinha, foi maravilhoso conhecer gente de tudo quanto é lugar, ouvir outras línguas, sotaques, histórias… 

O Rio é uma cidade de cidades misturadas. Sim, tem seus problemas, muitos problemas, como qualquer outra capital. Mas a riqueza histórica, cultural e natural, faz do Rio um destino tão diverso, que me apaixonei desde o momento em que cheguei.

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Foto de Chris Dornellas
Chris Dornellas
Exploradora por natureza. Escrevo sobre viagens, fotografia e descobertas que nascem no caminho. Acredito que explorar lugares também é uma forma de se explorar por dentro.

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