A chegada em BH, o cativeiro e a espera pelo carteiro.

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Domingo amanheceu cinzento e eu também.

A semana passou rápido e era dia de partir de SJDR e seguir pra BH. Acordei no meu tempo e só levantei quando senti fome. Tomei meu café enquanto assistia vídeos do Christian Dunker e da Tati Bernardes, num quadro chamado “Desculpe o transtorno”, aliás, adoro o nome.

Lentamente comecei a organizar minha tralha: mala, roupas, notebook (com a tela querendo sair), comidas e doces mineiros.

Tranquilamente fiz meus tabacos e o Dunker continuava falando… 

Tudo pronto, malas no carro, água no copo e o destino no Waze. Nem quis passar uma última vez no centrinho. Só queria pegar a estrada!

Uai Rango - Saindo de São João del Rey a caminho de BH
a criatividade do mineiro é diferenciada! 😀

Viagem tranquila… Domingo na hora do almoço não é um horário que muita gente escolhe pra viajar. O clima tava ameno: dia nublado, mas sem chuva, levemente friozinho para o esperado no começo de novembro.

A chegada em BH foi diferente… Afinal me acostumei com a calmaria de SJDR.

Cidade grande… avenidas, viadutos, ladeiras, morros, trânsito. Domingo à tarde, e depois do dia todo nublado na viagem, o sol deu as caras assim que entrei em BH. Foi como se ele viesse me dar as boas-vindas e, por amar tanto o sol, fiquei feliz com aquela saudação.

Gostei da recepção.

Mas eu me sentia um pouco deslocada. Era muito cedo pra eu chegar no lugar onde passaria um mês, uma suíte num bairro chamado Serra. Pelas fotos parecia um lugar perfeito: uma suíte independente, com eletrodomésticos de cozinha disponíveis e ainda um quintal. 

Eu tava ansiosa pra chegar na minha nova casa. Mas precisava dar uma enrolada. Fiquei vagando por BH, colocando pontos aleatórios no mapa só pra ter um caminho pra seguir.

Pensei em ir num shopping… mas logo descartei a ideia. Fazer o que lá? Melhor um café. Precisava comer… Ainda não tinha almoçado e já passava das quatro e meia da tarde.

Fui parar no Café com Letras, um café descolado, voltado às artes e à cultura, e chegando lá, tive certeza de que foi uma boa escolha. 

Sentei numa mesa estratégica: bem no fundo, com uma visão ampla do salão à minha frente. Na minha direita, um banco curvado que pegava toda a parede e ia até lá na frente. Olhando com mais calma, me lembrei do Park Güell, que conheci em Barcelona, cheio de obras de Gaudí. Lá tinha visto esse banco curvado, coberto com um mosaico de azulejos.

O garçom me atende muito bem. O preço é meio alto, mas ok… eu já esperava. Todavia, o gosto é bom. Finalmente eu tava mais à vontade na capital mineira.

Comi, tomei meu café… passei um tempo lá… eu não tinha pressa, pois combinei com a anfitriã que chegaria por volta das 7 e pouco. A noite chegou e o lugar tinha uma luz amarelada suave, deixando o ambiente levemente escuro, aconchegante. Gostoso ficar ali. 

Mas pensei que já tava dando a minha hora de chegar na hospedagem e achei que seria uma boa passar no mercado e já pegar as coisas do meu café da manhã, entre outras.

Fui parar no Verdemar (que é como se fosse o Pão de Açúcar de BH – depois fui descobrir). 

Peguei o que precisava, voltei pro carro e segui pra minha nova casa. Coloco o endereço no Waze e vejo que não estou longe! 

Que bom! Só quero chegar, tomar um banho e descansar! Eu pensava…

E então chego na rua onde tava o prédio em que eu ficaria. Aquelas ruas do entorno já começaram a ficar meio estranhas… mais desertas, bastante gente em situação de rua… E quando finalmente achei o prédio, vi bem ao lado um grupo de caras estranhos, vários deles, e confesso que por estar sozinha, senti um certo medo receio. 

Eu ia ter que parar o carro ali na rua… chamar a anfitriã, descarregar minhas coisas. E deixar meu carro ali na rua… todo dia.

O primeiro grilo foi implantado com sucesso na minha cabeça.

Passei reto e dei a volta no quarteirão. Enquanto isso mandei mensagem pra anfitriã avisando que tinha chegado.

– Consegui uma vaga pra você na garagem! Ela me disse.

Ah, que alívio! Pensei inocentemente.

No que ela abre o portão me deparo com uma garagem bem hardcore! Uma descida, estreita, com 3 fileiras de carros onde nitidamente deveriam ter duas.

Eu teria que ficar no canto esquerdo. Passar raspando entre o carro do lado direito e o pilar chapiscado à esquerda.

Foi tenso pra parar “na linha”. Eu que já tava cansada só queria chegar, tive que fazer um tanto de manobras até deixar o carro no pequeno e miserável espaço que me foi destinado.

A anfitriã foi simpática, mas por algum motivo oculto eu tive uma sensação estranha perto dela. Eu não sabia o que era.

Ela me dá então um molho de chaves! Era um chaveiro com mais de 15 chaves. Sem exagero. Eu tinha que testar várias pra abrir as portas até chegar no meu quarto.

E conforme fomos entrando e ela foi me mostrando a casa, eu senti vontade de sair correndo dali.

Que lugar é esse??? Eu pensava. Como ela vive aqui?

A casa era suja… cheia de coisas! Cheia! Minha suíte era bem pequena e tão cheia de objetos que foi difícil acomodar minhas coisas. De cara eu sabia que não queria ficar ali.

Fui na cozinha. Foi ainda pior. 

Tudo sujo: pia cheia de coisa suja espalhada… copo, xícara, colher, prato. Não só usado, mas sujo mesmo. O fogão com uma panela semi aberta, com um resto de alguma coisa. 

Eu, aflita, segurava minha sacola do Verdemar enquanto olhava a pia, procurando um espaço pra colocar minhas coisas.

A casa tinha uma energia deprimente. Era tudo sujo. Embaixo da pia uma barata morta.

Eu, fingindo normalidade, pensava em como iria ficar ali durante um mês. Um mês! Comecei a questionar esse negócio de viagem. Por que fui inventar isso? Onde eu tava com a cabeça… Eu, me achando inadequada mais uma vez.

Sentia vergonha daquela situação. Como alguém que vai receber um hóspede, que tava combinado há mais de um mês, deixa a casa assim? Que pessoa é essa? Tava indignada. Incomodada. Cabeça a milhão!

Olhei pro banheiro e bateu uma tristeza tão grande que eu perdi a vontade de tomar banho. Só guardei minhas coisas, escovei os dentes e tentei me aconchegar pra dormir.

Aquela roupa de cama não era limpa. Não cheirava a limpa. Assim como a toalha de banho. Estavam nitidamente usados! Tinha até mancha, cheiro de uso.

Mas eu ainda não sabia como ia sair dali, então aceitei o fato e consegui dormir.

No dia seguinte, percebi que a internet seria complicada… trabalhar aquele dia foi tenso. Caía toda hora. Minha sessão de terapia teve que ser concluída por telefone, porque era simplesmente impossível continuar por vídeo. Tava ficando chato já.

Mas na terça, tava de fato impossível! Reunião individual com gerente, o famoso 1:1. Mas sem condições. Começou a despertar em mim uma vontade incontrolável de sair dali. Não conseguia trabalhar!

Preciso achar outro canto! Urgente! Não vai dar pra ficar um mês nesse lugar.

Cogitei até voltar pra casa, tamanho desespero em sair daquele cativeiro.

Comecei a pesquisar lugares. Dessa vez eu seria mais cuidadosa. Tem coisas que não dá pra economizar tanto (nesse meu momento da vida). Tinha certas coisas de que eu não abriria mão: internet decente pra eu poder trabalhar, um banheiro só meu que não precisasse compartilhar, um espaço confortável pra eu me sentir bem. Limpo, arejado. Só isso.

Eu só queria um pouco de dignidade.

Queria dormir numa cama limpa. Tomar banho e me enxugar com uma toalha limpa e cheirosa. Queria poder preparar minha comida numa pia limpa, sem milhões de coisas usadas e sujas.

Depois de pesquisar por horas, achei algumas opções, falei com uns anfitriões. Paralelo a isso, chamei o suporte do Airbnb. Algo me dizia que as coisas não seriam tão simples com aquela anfitriã.

O fato é que essa experiência toda chegou a ser terapêutica em muitos sentidos. 

E de fato a comunicação com ela foi horrível.

Assim que ela recebeu o aviso do Airbnb de que eu queria antecipar o checkout, começou a me aterrorizar no WhatsApp. Mandava textão, queria brigar, discutir. Mas eu tava tão cansada e sem energia que não dei ibope pra ela… eu só queria resolver o meu problema. E ali não dava mais pra ficar. 

Ainda mais depois desse monte de textão sem noção que ela me mandou. Num deles ela terminou dizendo: você me causou um prejuízo enorme!

Eu causei prejuízo? Aluguei a suíte mais de um mês atrás, avisei com uma semana de antecedência se podia antecipar o check-in pra noite do domingo, chego e a casa tá suja? 

Minha humilde suíte com roupa de cama usada, toalhas usadas, com mancha? Cozinha imunda, tudo sujo e espalhado. Internet horrível a ponto de eu não conseguir trabalhar!

Eu me senti naquelas casas de acumuladores, onde tem um monte de coisa socada e suja… 

O fato é que eu não me sentia nada bem ali desde o momento em que cheguei.

Ela viajaria no dia seguinte às 9 e me pediu pra sair às 8. O que fiz até antes. Era 7 da manhã e eu terminava de guardar minha tralha no carro.

Bule de café no Bendito Café BH
o bule do Bendito Café!

Tava quase saindo daquele lugar medonho, mas teria que chamar a querida pra abrir o portão e entregar as chaves. 

Tudo o que eu não queria: falar com aquela mulher mais uma vez. Ter que olhar na cara dela. Ter que interagir. Eu não queria!!!! 

E foi como se o destino estivesse a meu favor naquele momento. Um senhor apareceu na garagem e se preparava pra ir trabalhar. Aproveitei a deixa e saí junto com ele, deixando a chave embaixo de uma pedra e simplesmente avisando a anfitriã que eu já tinha ido.

QUE ALÍVIO SENTI AO SAIR DALI!

Eu me sentia suja. Eu tava suja, não tinha tomado banho no dia anterior. Tava menstruada. Com cólica. Com fome. Com calor.

Parei no Bendito Café, pra comer, na esperança de me livrar daquela urucubaca da braba.

Tomei meu café com calma. O que gostei é que eles servem o bule de café, não só uma xícara. Tudo o que eu queria. Litros de café.

Eu ainda tinha uma missão pela frente: pegar meu notebook que seguia pelo correio, mas ia pro endereço de onde eu tinha acabado de me mandar. Fui pro centro de distribuição dos Correios na esperança de pegar direto lá.

Mas, óbvio que não foi tão simples assim. Uma que, pro bairro onde eu tava, a encomenda ficava em outro centro de distribuição, não nesse onde eu tinha ido. E mais, eu não conseguiria pegar. Não é possível falar com ninguém lá. Mistérios dos Correios…

– O jeito é você ir lá no endereço, moça, e ficar esperando. 

Disse o carteiro simpático que me atendeu, enquanto eu disfarçava minha vontade de chorar de raiva de tudo aquilo.

Eu precisava chegar na minha nova hospedagem, tinha combinado que chegaria às 9h30 da manhã. Enfim, cheguei e agora sim eu tava numa casa, como a maioria das casas. Minha suíte tava limpa! Era clara e iluminada! Roupa de cama limpa! Toalha de banho também!  Casa limpa, cozinha limpa! Nem acreditei!

minha nova casa em BH

Mas eu ainda não ia ficar ali. Tinha que voltar lá, naquela rua na Serra, e esperar pelo carteiro que levava meu notebook do trabalho.

E lá fui eu, rumo àquele endereço que me trouxe tantos dissabores, passar por mais um.

Chego por volta das 11h15, consulto o rastreio e vejo que “a encomenda já saiu pra entrega”. Que bom, pensei.

E lá fico eu, num calor de 32 graus, na rua cheia dos cria do morro da Serra, e fico ali simplesmente esperando… esperando… esperando… De olho nos retrovisores o tempo todo.

Meio dia… nada! Uma hora… nada! Deu 13h30 e eu precisava muito fazer xixi! E agora? Como resolvo isso?

Vejo uma mulher saindo da garagem do prédio da frente. Saio do carro e vou até ela com um ar de desespero.

Moça, preciso de ajuda! Imploro com a voz fraca. Conto a minha saga: tô aqui esperando o carteiro, que traz meu note… não tô mais nesse endereço… tals. E preciso ir no banheiro. Tem algum aqui nessa garagem?

A mulher, que devia tá achando toda aquela história estranha, só pensava em sair da situação e me disse: ihh, não tem não, fia… 

Agradeço com um meio sorriso, mas no fundo eu tô sem saber o que fazer. Não posso sair daqui! Eu pensava o tempo todo. Ando até a esquina e vejo dois senhores. Me aproximo, conto a minha saga e peço pelo banheiro. 

Um deles, se esquivando,  diz estar esperando a esposa… percebo que a situação não ia progredir no que rapidamente ele se lembra: tem uma padaria na esquina! Logo ali! Mal deu tempo de agradecer, corri em direção a ela. 

Finalmente fui no banheiro!!  Aproveitei pra pegar uma Coca (zero) e 2 pastéis de carne. Gastei 11 reais. Tudo muito rápido, com medo de desencontrar do homem de amarelo e azul.

Volto pro carro. Fumo mais um cigarro.

Jogo o final da Coca no chão, pra poder jogar a lata no lixo, deixando aquela espuma no asfalto do resto da Coca quente bem do lado da minha porta. 

Um dos cria do morro da Serra passa, olha aquela espuma, olha pra mim e pergunta: tá passando mal, moça?

No que eu respondo: foi a Coca!

Não sei se foi uma boa resposta, nem se ele entendeu de que Coca eu falava, mas enfim…

Espero mais…  2 horas… 2h30… 

O dia tava tão estranho que eu já nem me importava mais. Mais alguns minutos se passaram, até que vejo um cara de camisa amarela com uma caixa na mão, virando a esquina. 

Sem pensar em mais nada, abri a porta do carro e falei, enquanto ele atravessava a rua: 

– Moço, isso daí vai pro número 288? Christiane? Sou eu!!!!

Quase dei um abraço no homi, tamanha era minha alegria em ver ele chegar. Tentei explicar minha saga e o porquê da minha euforia e espero que ele tenha entendido…

A sensação de entrar no carro com a caixa do note no banco do passageiro e seguir pro meu novo endereço, digno e limpo, foi tão intensa que nessa hora eu falava sozinha no carro, de alegria, alívio, calor, raiva, entre outras coisas.

Aumentei o som e pisei fundo no acelerador nessa hora. Finalmente eu seguia pra minha nova casa! Limpa.

Cheguei e, sem pensar em mais nada, fui direto tomar banho. Eu me senti a própria Fernanda Torres, em Ainda Estou Aqui, quando ela volta pra casa e toma aquele banho de bucha, tão emblemático.

Agora sim, eu tinha chegado em BH.

Se você gosta de ler esse tipo de leitura, aproveite pra ver meu relato sobre o dia que fui no Mercado Central de BH.

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Chris Dornellas
Exploradora por natureza. Escrevo sobre viagens, fotografia e descobertas que nascem no caminho. Acredito que explorar lugares também é uma forma de se explorar por dentro.

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